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sábado, 13 de novembro de 2010

O ABORTO E A MAÇONARIA


Dentre tantas temáticas interessantes e pertinentes para discussão em Loja, cremos ser a questão do aborto, a favor ou contra, muito propicia e mesmo fascinante.

Para tanto, poderemos deixar em segundo plano, os aspectos puramente legais a fim de que possamos nos ater mais especificamente às áreas filosóficas, de moral e ética, e também transcendentais, mais afetas a nosso meio.

Temos entre outros princípios doutrinários, o de respeito à vida.

Igualmente, não menos importante, os direito à liberdade e individualidade.

Cremos também no principio Criador, num ser ou entidade superior e por extensão, na imortalidade da alma.

Este artigo não tem a pretensão do estabelecimento de dogmas, ou uma “receita” em tal área tão complexa, mas apenas a de suscitar a dialética. Seria, portanto, muito oportuno, um debate na Oficina, visando identificação do posicionamento de cada nobre Irmão.

Assim, neste espaço, vamos tão somente, apresentar alguns aspectos objetivando propiciar trilhas para tão fascinante questão.

Quando identificamos que todos têm direito à vida, precisamos estabelecer na verdade, certos parâmetros para tal.

De quais vidas estão-se falando? De todas elas, de todos os seres vivos? De todos os animais? De todas as plantas? Dos microorganismos e mesmo bactérias? Presumivelmente não. Estabelecemos como área limite, a vida dos seres humanos.

Assim, por excelência, não somos contrários ao abate dos animais, para satisfação de nossas necessidades fisiológicas, mesmo aquelas consideradas exageradas. Igualmente com relação às plantas e cereais as quais ingerimos sem o menor constrangimento.

A maioria de nós não hesitaria em exterminar qualquer bactéria que nos impusesse sofrimento e mesmo a morte.

É certo que nos tempos atuais, os seres humanos de caráter mais elevado, mais altruístico, entendendo melhor a cadeia da vida terrena, criticam os exageros praticados pela humanidade; alguma coisa tem logrado êxito neste sentido, mas falta muito mesmo para atingirmos um grau de civilidade mais racional e defensável à luz da posteridade.

Vale lembrar ainda que de acordo com as últimas pesquisas científicas, o grau de proximidade de nosso código genético com os chipanzés e camundongos ultrapassam noventa e cinco por cento, mas trata-se aí de outra e perigosa área de analise.

Então em nossas hostes, poderíamos simplificar tal assertiva, restringindo tal ideal, pelo menos por hora, concernente a vida dos seres humanos.

Ultrapassada tal etapa, temos outra questão igualmente delicada. Acreditamos e pregamos o principio Criador, a imortalidade da alma; obviamente, estabelecemos que todo humano além de matéria, compõe-se também de espírito, ou alma como apregoam muitos.

Quando surge a alma nos seres humanos? No momento da concepção? Depois que o feto é formado? Quando nasce efetivamente, ou algum tempo depois do nascimento?

A identificação da existência da alma, não é de hoje, mas já pertencente há muitas culturas antigas. Por exemplo, em Ilíada, de Homero, há várias citações quando o combatente ia desta para melhor, o uso da expressão: - “escapou-lhe a alma”.

Poder-se-ia inferir inclusive, que uma vida, só poderia receber tal identificação, quando estivesse completa, isto é, corpo e alma.

Talvez resida aí, uma sub-temática, interessante para os Irmãos debaterem, notadamente aqueles mais espiritualistas que crêem inclusive na chamada “reencarnação”. Quando eles chegam de outro plano e se incorporam aos seres? Durante a gestação? Antes? Depois?

Certamente nenhum de nós poderia responder conclusivamente a tão difícil argüição, mas ao menos poderá suscitar interessante questionamento.

Se, contudo formos mais pragmáticos, poder-se-ia observar, substancial diferença entre os seres humanos e todas as outras demais espécies. Consiste, justamente, em nossa capacidade intelectual. Em que pese que outros seres vivos, também a detém, são tão substanciais as diferenças, que poderemos com assegurado grau de certeza, estabelecer esta linha limite.

Nosso cérebro propicia um grau de intelectualidade, que permite, não só o uso de ferramentas, mas de alta tecnologia, na física, química, matemática, astronomia, nas artes, e as demais áreas de conhecimento que não temos pares aqui neste planeta, muito embora, outros seres poderiam por em dúvida os benefícios gerais de tal intelectualização já que põe em risco não só a própria sobrevivência dos seres humanos, mas de todas as espécies no planeta, tal sua sanha predatória, homicida e desrespeitosa com o planeta, mas isto é outra história.

Então se podermos concluir com certo grau de segurança que o direito inalienável á vida é restrito aos seres humanos, em função de seu cérebro, por inferência, seria justo de supor que apenas quando tais seres estejam dotados de cérebros com capacidade elementar de processamento é que se pode pressupor que sejam humanos numa concepção mais ampla.

Como resultado de tais assertivas, a questão do direito à vida, e neste caso, da tratativa da legalidade do aborto, poderia ser restrita à quando o ser nascente fosse já dotado de cérebro e não no momento da concepção.

De acordo com as pesquisas médicas a respeito, as atividades cerebrais, tais como a concebem, ocorrem a partir do sexto mês de gravidez. Nessas condições, sob a plataforma aqui identificada, seria defensável a realização do aborto até aquele período.

Temos a considerar também que no passado, na maioria das culturas, a prática do aborto era livre. Tanto assim que, por exemplo, nas Escrituras, tão pródiga no estabelecimento de normas de conduta, alimentação etc., não há nenhuma menção à prática do aborto. Igualmente nos chamados Evangelhos.

De fato a postura da Igreja contra o aborto, no caso do feto já evoluído, só ocorreu em fins do século XIX.

Já para os protestantes, igualmente cristãos, a prática do aborto, foi combatida, mesmo quando se colocava em risco de vida a parturiente.

Se por um lado, temos que ao ser nascente deve haver o sagrado direito à vida, não menos verdade o direito a liberdade e o livre-arbítrio. Neste caso, não cabe a mulher o direito ou não de realizar o aborto, em condições higiênicas saudáveis, assegurado que o feto não tenha mais de seis meses de gestação?

Vale lembrar que o dever seguinte que pouca gente considera, reside no “a posteriori”. Afinal todo mundo tem uma mãe, mas muitos não têm um pai. Em geral o fardo da subsistência e educação da criança, na vacância, quase sempre recai sobre a mãe, na maior parte das culturas conhecidas.

Também poderia ser considerado, medidas mais eficazes que contribuíssem para diminuir a incidência de abortos de um modo geral. O controle da natalidade resultaria um razoável passo, visando à diminuição de tais aflições, em que pese o posicionamento da Igreja Católica contra, mas deve-se observar que o “depois”, fica por conta das mães e não da instituição, pois afinal, não se tem conhecimento que padres possam ovular, engravidar ou que sejam parturientes. Tal hipocrisia é que muitas vezes tende a arrastar a humanidade para trás.

Ainda assim, reconhecemos que tal temática embora apaixonante, é extremamente complexa e, portanto, mais do que nunca, ser ideal como tema de debates no templo que concebemos ser o da sabedoria.

Em tais condições, tal dialética pode contribuir favoravelmente durante os percalços que a nós próprios e a nossos entes queridos o destino possa reservar e mais que isso, no estabelecimento de um posicionamento da Maçonaria a respeito, muito pródiga nos dias atuais em discussões sobre festas de confraternização, ou se tal ritual diz isso ou aquilo, que afinal são interessantes e importantes, mas menores em relação aos compromissos que temos com a sociedade que nos cerca e com o mundo que pretendemos legar aos nossos descendentes...

Ariel Mariano
Ariel Mariano
Co-fundador Loja Libertas Salto, 637, membro da Academia Paulistana Maçônica de Letras.



Nota do Blog

"Um aborto ou interrupção da gravidez(ver terminologia) é a remoção ou expulsão prematura de um embrião ou feto do útero, resultando na sua morte ou sendo por esta causada.[1] Isto pode ocorrer de forma espontânea ou artificial, provocando-se o fim da gestação, e consequentemente o fim da vida do feto, mediante técnicas médicas, cirúrgicas entre outras.

Após 180 dias (seis meses) de gestação, quando o feto já é considerado viável, o processo tem a designação médica de parto prematuro.[2] A terminologia "aborto", entretanto, pode continuar a ser utilizada em geral, quando refere-se à indução da morte do feto.

Através da história, o aborto foi provocado por vários métodos diferentes e seus aspectos morais, éticos, legais e religiosos são objeto de intenso debate em diversas partes do mundo."


Para ler esta matéria completa, clique aqui.

domingo, 7 de novembro de 2010

A RESPONSABILIDADE DA MAÇONARIA BRASILEIRA NA SOCIEDADE ATUAL


Escrito por João Baptista de Oliveira (JB)

PRIMEIRAS PALAVRAS

O assunto não é novo.

Já me ocupei dele em ocasiões anteriores. Isto, entretanto, não o torna menos atual nem menos importante.

O Brasil atravessa uma fase das mais críticas de seus 500 anos de história.

Dentre as muitas crises que o assolam, destaca-se a banalização da vida humana.

Tanto no sentido social — com a assustadora e crescente quantidade de pessoas padecendo fome e miséria — como no sentido físico, em que a violência de todo tipo mata mais do que guerras declaradas.

Frente a esse cenário de preocupação, perturbação e angústia, uma instituição que se dedica à construção do edifício moral da sociedade não pode omitir-se, sob pena de negar seu glorioso passado, sua tradição humanista, e sua razão de ser, sintetizada na trilogia que a identifica em todo o mundo.

INTRODUÇÃO HISTÓRICA

Descoberto “acidentalmente” em abril de 1500, no último ano, portanto, do século XV, ao chegar aos primórdios de 1800, o Brasil já amargava nada menos que três séculos de dominação estrangeira.

Ao longo desse período já se formara, lenta — mas progressiva e indelevelmente — o sentimento de brasilidade, que vai despontar na história com a designação de “sentimento nativista”.

Sua manifestação marca-se, fortemente, no século XVII, nos episódios de reação contra os invasores franceses e holandeses, e, especialmente, nas Batalhas de Guararapes, de 1648 e 1649.

É quando, pela primeira vez, fala-se em uma “tropa brasileira”, integrada por elementos das três raças formadoras do povo brasileiro: o branco, o índio, e o negro, sob o comando de André Vidal de Negreiros, Felipe Camarão e Henrique Dias.

Em homenagem a esse importante feito, o Dia do Exército passou a ser comemorado em 19 de abril, data da primeira Batalha de Guararapes.
Além, já no século XVIII, surgem várias manifestações pró-independência, destacando-se, entre outras, as insurreições de Felipe dos Santos, esquartejado em Vila Rica em 1720, e de Tiradentes, enforcado em 1792.
Data desse período, de inegável busca de autonomia nacional, a gênese da Maçonaria no Brasil.

A este respeito traçamos  há algum tempo  um ensaio que, por oportuno, reproduzimos a seguir.

“A TRILOGIA INACABADA”.

1. A VEZ DA LIBERDADE

É fato incontestável que a instituição maçônica chegou ao Brasil bafejada pelo anseio de liberdade política do país.

Desde sempre liberdade e maçonaria caminham lado a lado.

Jovens brasileiros que estudavam na Europa e na América do Norte, tomando contato com o ideal libertário que originara a Revolução Francesa (14.07.1789) e a Independência dos Estados Unidos (04.07.1776), empolgaram-se com a perspectiva de propiciar ao Brasil sua tão sonhada autonomia política.

Em pouco tempo detectaram — no embrião desses movimentos — a presença silente, ativa e constante da Maçonaria, fiel à sua trilogia: LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE.

A partir daí a campanha passa a ser comum, e a independência do Brasil se efetiva muito mais pela força da persuasão que pelo poder das armas.

Tanto isto é certo que o sete de setembro — data bonita e memonicamente propícia — marca a proclamação pública de nossa independência que, segundo informam ilustres historiadores, fora “data e traçada” no dia 20 de agosto — atual “dia do maçom” — no interior do Grande Oriente do Brasil.

Como conseqüência direta desse entendimento sobranceiro e fraterno, poupou-se o país do pesado e nefasto ônus de mortes, viuvez e orfandade.
O Brasil, a partir de 7 de setembro de 1822, passa a integrar o concerto das nações livres do mundo!

2. A VEZ DA IGUALDADE

No país livre, entretanto, nem tudo era liberdade.

Seres humanos tão dotados de sensibilidade, inteligência e capacidade quanto os demais, eram cruelmente discriminados, humilhados, maltratados, animalizados e, até, assassinados, meramente em razão da cor de sua pele, como se a pigmentação lhes negasse a condição de “imagem e semelhança de Deus!”.

Esse comportamento anti-social, destoante dos princípios de uma “sociedade filosófica, filantrópica e progressista, que pugna pela igualdade de direitos entre os homens, quaisquer que sejam suas características de cor, sexo, convicção religiosa e política” — não podia receber senão sua repulsa e inconformação.

Isso posto, a Maçonaria empalma uma nova e gloriosa bandeira, desenvolvendo a pertinaz e silenciosa luta que — passando pelas leis Do Ventre Livre (1877) e Do Sexagenário (1885) — culminou com a LEI ÁUREA que, promulgada em 13.05.1888, libertou uma raça e redimiu toda uma nação.
Outra não poderia ser a atitude de uma Instituição que, em cada reunião, mostra através do Pavimento Mosaico — branco e preto — a harmonia dos contrastes.

3. AINDA A VEZ DA IGUALDADE

Liberto o Brasil da vergonhosa pecha de “país escravagista”, competia eliminar da vida nacional uma segunda discriminação: a oriunda do sangue.
Os postos mais elevados da hierarquia organizacional do país eram indiscutível privilégio dos nobres — tivessem ou não capacidade — em detrimento dos plebeus — tivessem ou não capacidade.

Vanguardeira das lides justas, cabe à maçonaria conduzir — em paz e harmonia — o processo de modernização do Brasil, levando-o da monarquia dos oligopólios feudais à democracia da ampla isonomia, em que “todos são iguais perante a lei”.

4. A HORA DA FRATERNIDADE

Esta última porfia maçônica — a Proclamação da República — teve seu coroamento em 15 de novembro de 1889, portanto há mais de um SÉCULO!
E de lá para cá, o que temos feito?

Batido malhete!

Damo-nos por satisfeitos com as glórias do passado e julgamos que está tudo consumado!

Tudo justo e perfeito!

Estará?


É evidente que não.
A trilogia está inacabada.
Temos a LIBERDADE. (Temos?)
Temos a IGUALDADE. (Temos?)
Mas... e a FRATERNIDADE?

É ocioso dizer que sem a fraternidade, a igualdade e a liberdade são utopias.

Tem LIBERDADE a cidadão que se cerca de muros e grades temeroso de assaltos, roubos, violência e seqüestros?

É livre quem não ousa sair à noite, ou andar por certas áreas, ou deixar a porta de sua casa aberta?

Há IGUALDADE num país em que muitos têm tão pouco, que sofrem fome, frio, miséria e doenças — enquanto poucos têm tanto que até sua quinta geração não conseguirá gastar?

E o que dizer daqueles que — nascidos na mesma pátria amada Brasil, aquecidos pelo mesmo sol da liberdade — não se pejam de explorar seus irmãos de nacionalidade, impondo-lhes juros escorchantes; ou auferindo lucros indevidos e exagerados; ou desprezando os princípios comezinhos da ética profissional e moral; ou tratando os humildes com desprezo, prepotência, rispidez, insensibilidade e preconceito — declarado ou velado?

Não será este o momento de os maçons de hoje deixarem de tecer loas aos gloriosos feitos do passado — concretizados por seus antecessores — e realizar algo HOJE, para deixar de herança à sua posteridade?”

O PANORAMA ATUAL

Interrompo a transcrição do texto nesta pergunta-desafio porque sei que ela suscita outras indagações: O QUE FAZER? COMO?

Consideremos: a gritante desigualdade sócio-econômica existente no país não afeta apenas a parcela menos favorecida da sociedade.

Esta sem dúvida, sofre cada dia mais o pesado fardo de sua incapacidade financeira.

Proliferam favelas e barracos por toda a parte, e é cada vez maior o número de pessoas morando nas ruas e nos baixos de viadutos e de pontes. Aumenta também, a olhos vistos, a quantidade de mendigos, pedintes, desocupados, vendedores de bugigangas, “marreteiros”, prostitutas, meninos de rua, desempregados, marginais, “trombadinhas” e que tais. São multidões que passam mal, moram mal, alimentam-se mal, trajam-se mal — vivem mal, enfim — não sendo de estranhar que muitos passem a comportar-se mal, atraídos pelo chamariz do furto, do assalto, do tráfico e de outros crimes.
Suas crianças dificilmente entenderão — e menos ainda aceitarão — a abissal diferença entre sua negra miséria e a excessiva opulência das crianças ricas, o que certamente virá a ser o germe da cobiça, da revolta, do ódio e da violência.

E é aqui, precisamente, que os extremos se tocam.

Nascida nos focos de pobreza e miséria, a violência começa por fazer vítimas ali mesmo.

São agressões violentas, espancamentos, homicídios, guerras de gangues, balas perdidas, chacinas. Na Grande São Paulo esse tipo de violência contra a vida, aliás, subiu de 49 casos com 168 mortes em 1995, para 88 chacinas com 302 homicídios em 1999! Só no período de 1º de janeiro a 8 de março do ano seguinte (2000) ocorreram 21 chacinas com 73 mortes! (Isto levou o Departamento de Homicídios (DHPP) a criar, em 18 de fevereiro de 2000, a EQUIPE ESPECIALIZADA EM INVESTIGAÇÃO DE HOMICÍDIOS MÚLTIPLOS — O GRUPO ANTI-CHACINA.)

No pólo oposto - nas áreas de riqueza e abastança - predominam roubos, assaltos, latrocínios e seqüestros, todos, invariavelmente, marcados por extrema violência — quase sempre desnecessária e gratuita.

Vão longe os tempos em que ladrões furtavam, sorrateiramente, na calada da noite, fugindo ao menor sinal da aproximação de alguém.

Hoje são raros os furtos e freqüentes os roubos e assaltos, praticados à luz do dia, com tanta violência e agressividade que se pode ler o ódio e a revolta represados nos corações de seus praticantes — muitos dos quais menores, crianças.

A conclusão é óbvia: cada vez mais o nosso bem-estar depende do bem-estar dos outros.

Somente diminuindo o abismo existente entre os extremos sociais, caminharemos para o equilíbrio, evitando que a prosperidade seja uma minúscula ilha cercada por violentas ondas de miséria prestes a sufocá-la.

O QUE DEVE FAZER A MAÇONARIA?

Para continuar a influir na história — como sempre o fez — deve a Maçonaria sair da contemplação e vir para a PARTICIPAÇÃO.

Que participação?

Inicialmente a PARTICIPAÇÃO POLÍTICA

Não, evidentemente, em seu aspecto político-partidário, contrário aos nossos princípios, mas na acepção ampla e autêntica de política como a define Platão: “a ciência do bem comum”.

Por um lado, temos maçons presentes em todas as esferas do poder público — especialmente no Legislativo.

Todos prestaram compromisso de fidelidade aos postulados da Ordem. A Maçonaria pode e deve, portanto, acioná-los no sentido de que tais princípios sejam aplicados no trato das questões públicas, prevalecendo sobre interesses pessoais, grupais ou partidários.

Por outro lado, a própria Instituição goza do prestígio de entidade séria, honrada e respeitável junto ao mundo profano. Em conseqüência, qualquer exercente do poder público — do Executivo, Legislativo ou Judiciário — que receba um documento subscrito pela Maçonaria, o terá em grande consideração.

Esta participação, delicada como se sabe, deve ser orientada por um CONSELHO DE PARTICIPAÇÃO POLÍTICA ativo, bem-formado e bem-informado a quem caberá analisar o momento político e decidir pela oportunidade, natureza e intensidade de cada manifestação da Ordem, acompanhando seu desenrolar até o final.

O importante é não haver nem OMISSÃO nem DESCONTINUAÇÃO.

Outra indispensável área é a da PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA.

Onde quer que haja uma agremiação aberta à comunidade, a Maçonaria TEM de estar presente e atuante, como “o pouco de fermento que leveda a massa”, na expressão bonita de São Paulo.

Conselho Comunitário de Segurança; Conselho Comunitário de Saúde; Conselho Tutelar do Menor; Associações Comerciais e Industriais; Rotary e Lions Clube; Sociedades Amigos de Bairro; APM’s; Santas Casas de Misericórdia; entidades associativas e de classes profissionais; programas de parceria com o poder público etc. são alguns exemplos de oportunidades de participação comunitária.

A cada dia cresce o poder de influência dessas corporações junto aos governantes. E é imprescindível que a Ordem aí esteja.

Registra-se hoje, na área de segurança pública, o chamado POLICIAMENTO COMUNITÁRIO, que coloca lado a lado a polícia e a comunidade em uma parceria bem sucedida. É fruto da insistente atuação da população através dos Conselhos Comunitários de Segurança, Núcleos de Ação Local, Associação Comercial e outras entidades. Dando acolhida e consecução a essa iniciativa, a Policia Militar do Estado de São Paulo criou e implementou um DEPARTAMENTO DE POLÍCIA COMUNITÁRIA na corporação.

Por fim, cabe enfocar a PARTICIPAÇÃO COOPERATIVA.

Não é difícil perceber que na base dos problemas apontados predomina o caos social, efeito de um amplo universo de causas, como:

Desestruturação familiar; desemprego galopante (cerca de dois milhões de desempregados na região metropolitana de São Paulo!); despreparo profissional; escassez de vagas escolares; alto índice de evasão e repetência nas escolas; crescente número de menores em situação de abandono (dados recentes do IBGE registram 32 milhões nesta situação no país!); incapacidade do poder público para cumprir sua função social nos campos da saúde, educação, transportes, habitação, previdência social e segurança (Na área prisional, por exemplo, vive-se o paradoxo de 175.000 vagas comportando cerca de 240.000 presos — o que torna cada cadeia um barril de pólvora, prestes a explodir! Acresça-se a este número cerca de 300.000 mandados de prisão por cumprir e algo em torno de 400.000 processos penais em andamento, de que resultarão, obrigatoriamente, novas ordens de prisão...). E aqui ocorre um sério paradoxo: se todos os mandados forem cumpridos, onde colocar os presos? Se, por outro lado, não forem cumpridos, toda a máquina da Justiça está brincando de “faz de conta”...

COMO AGIR COOPERATIVAMENTE

Contemplando essa dramática realidade, é inaceitável que não façamos algo. Já!

É tão grande e diversificada a necessidade, que qualquer coisa — por pequena que possa parecer — representará sensível ajuda para melhorar — ou pelo menos “despiorar” a crítica situação nacional.

Nesse sentido, seria desejável e oportuno que cada Loja se convertesse em um NÚCLEO DE AÇÃO SOCIAL, cumprindo uma ou mais funções de amparo, orientação e ajuda em relação à sua comunidade.

À guisa de sugestão, podemos enlistar:

Programas de alfabetização de adultos. Cursos de orientação profissional.Programas de orientação vocacional para jovens. Cursos de iniciação profissional: office-boys; auxiliares de escritório; auxiliares gerais; rotinas de empresa etc. Cursos de primeiros socorros. Cursos breves de iniciação a marcenaria, carpintaria, mecânica etc. Programas orientacionais de saúde, higiene pessoal, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis; prevenção de drogas; recuperação de drogados e alcoólatras etc.

Programas de apoio a creches, asilos, orfanatos e educandários. Programas motivacionais para escolares com premiação por trabalhos, concursos e jornadas estudantis. Programa de motivação cívica. Instituição de programas de amparo ao menor, como o CAMP — Círculo de Amigos do Menor Patrulheiro e assemelhados. Programas de parceria com o poder público para suprir deficiências educacionais, familiares etc.

Se outra coisa não puder ser feita, basta que cada Oficina abra em seu espaço um CURSO DE ALFABETIZAÇÃO DE ADULTOS, o que será suficiente para melhorar a qualidade de vida de muitos brasileiros. Poderão implementar também CURSINHOS PRÉ-VESTIBULARES, assim como CURSOS SUPLETIVOS, a custo zero ou reduzido, para jovens de baixa renda. Não faltarão Irmãos aposentados ou com tempo disponível para isso. Se não, basta pedir “a ajuda dos universitários”... Nossos jovens estão ávidos por fazer alguma coisa útil e em seus corações vibra ainda o ideal, que já não vive em muitos dos idosos...

Também na Ordem devem se constituir CONSELHOS, reunindo irmãos de acordo com sua atividade profissional, formação, experiência ou conhecimentos, de modo a se ter “as pessoas certas nos lugares certos”.

Entre outros, um CONSELHO DE ASSUNTOS JUDICIAIS (OU JURÍDICOS) poderia ter a seu cargo todo o acompanhamento da situação dos presídios, reexaminando processos, recorrendo nos casos cabíveis, analisando fichas prisionais (há inúmeros casos de pessoas que já cumpriram suas penas e permanecem presas) e trabalhando pela ressocialização dos presidiários — objetivo final raramente obtido pelo sistema.

O momento atual, porém, apresenta um problema, um desafio, ainda mais grave e premente, no qual já se acha atuando a Ordem Maçônica.

Trata-se do avanço crescente e incontido das DROGAS!

Já não mais no meio dos jovens, mas no seio da INFÂNCIA, vitimando, em pleno início de vida, as crianças da Escola Primária - outrora “risonha e franca!”

A sociedade, em sua paquidérmica acomodação, reclama, protesta, vocifera, mas NADA FAZ, atribuindo toda responsabilidade de ação ao Governo.
Este, por sua vez, tem se mostrado insensível, indiferente, ineficaz e incompetente em relação a algo que, embora tão sério, não lhe dá dividendos políticos.

Paralelamente a esse problema corre outro que a ele se liga e o alimenta: A INFLUÊNCIA PERNICIOSA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO! Ninguém de bom senso duvida de que a TELEVISÃO, por excelência, é um instrumento diabólico de estímulo aos vícios, à violência, aos desregramentos sociais, à permissividade sexual e aos crimes em geral.

Filmes, novelas, noticiários, programas de entretenimento é até desenhos animados — outrora inocentes — hoje são verdadeiras aulas ilustradas de tudo o que não presta!

Basta citar exemplo: no dia 4 de fevereiro de 2000, em Brasília — após assistir ao filme “Brinquedo Assassino 2” — um garoto de apenas 9 anos agrediu uma menina de 7, com mais de vinte golpes de faca!

Toda a sociedade sabe, sem sombra de dúvida, do desastre moral que a televisão representa para nossas crianças.Entretanto, nenhuma ação para impedir isso surge das pessoas ou do governo!

A esperança de solução, portanto, não está no “Poder” Público — impotente e desinteressado. Nem na sociedade ampla — inerme, inerte e aturdida — mas nos GRUPOS SOCIAIS ORGANIZADOS, que são estruturados, conscientes, lúcidos e ativos.

E é nesse universo de lucidez altruística e realizadora que desponta a Maçonaria como instituição séria e respeitada, que sempre teve, tem e terá profundos e nítidos compromissos com o bem-estar da Humanidade. Assim como proclama sua autodefinição: “sociedade filosófica, filantrópica e progressista!”.

CONCLUSÃO

Retomo aqui o texto do ensaio para concluir o tema.

LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE não é, de forma alguma, uma trinômia de elementos independentes. Ao revés, é um todo uno e indivisível.
E assim como o tripé não se sustém sem a ação conjunta dos três esteios, a Sublime Instituição não poderá cumprir plenamente seu desiderato de construção do edifício moral da sociedade sem o acoplamento de seu terceiro elemento.

Em um Brasil em luta e transição, em um Brasil envolto em dívidas e dúvidas, o prosseguimento da luta firme, serena e fraterna da Maçonaria é absolutamente indispensável.

Não pela LIBERDADE.

Nem pela IGUALDADE.

Mas pela FRATERNIDADE, que as unifica, completa e viabiliza, confirmando as meigas palavras de David, o Rei-Poeta:

“O QUÃO BOM E QUÃO SUAVE É QUE OS IRMÃOS VIVAM EM UNIÃO... PORQUE ALI O SENHOR ORDENA BÊNÇAO E A VIDA PARA SEMPRE. ”



JOÃO BAPTISTA DE OLIVEIRA, Grau 33.:, é Obreiro ativo das AA.:RR.:LL.:SS.: Carlos Gomes e Madras, e Past-Master da Loja Antonio Simões Ladeira. Foi Grande Secretário de Orientação Ritualística, Presidente da Comissão Pró-Civismo e membro do Ilustre Conselho Estadual do Gr.: Or.: São Paulo. Na vida profana, é Conselheiro Seccional e Presidente da Comissão de Relações Corporativas e Institucionais e membro da Comissão de Inscrição da OAB São Paulo; Membro-fundador do INQJ – Instituto Nacional da Qualidade Judiciária; foi Presidente do Conselho Comunitário de Segurança do Centro de São Paulo; foi Presidente da Comissão Coordenadora do Programa Centro Seguro; Membro da Ação Local Paissandu; Conselheiro da Associação Comercial de São Paulo—Distrital Centro; Conselheiro Consultivo da AMITUR – Associação dos Municípios de Interesse Turístico do Estado de São Paulo; Diretor Cultural da Sociedade Amigos da Segunda Divisão de Exército - SASDE; Conferencista da ADESG e Sócio-Fundador e Vice-Presidente do Rotary Clube de São Paulo—Sé; Membro da Academia Cristã de Letras; da Academia Paulistana Maçônica de Letras e da Academia Maçônica Internacional de Letras. Membro do Instituto Histórico de Geográfico de São Paulo.

Na atividade profissional é Consultor Empresarial e Educacional, Professor de Comunicação, Marketing e Vendas, e Conferencista. Autor dos livros “FALAR BEM É BEM FÁCIL”, “COMO PROMOVER EVENTOS — CERIMONIAL E PROTOCOLO NA PRÁTICA”, “MENSAGENS E TEMAS PARA MEDITAR” e “INSPIRAÇÃO”. Produz e apresenta o Programa “O Poder da Palavra”, pela Rádio Mundial FM, aos domingos às 17h30.

F R U S T R A Ç Ã O

Frustração é crer, amar, querer, criar, ver, lutar, intuir, afirmar, sentir ardentemente alguma coisa e não vê-la fluir, frutificar, crescer, não podê-la fruir, estimular, proporcionar, torná-la perene na vida , na ética, na bondade da terra, na vida de uns e de outros.

É ver que não a vêem, não a ouvem, não a querem ver nem ouvir ou sentir, tampouco inspiram fragrâncias da pureza matinal, não degustam do delicado néctar, essencial ao seletivo e frágil colibri, beija-flor feliz e multicolorido, não se maravilham por nada ao seu redor e à sua visão, não se extasiam ante a explosão de beleza de um arco - íris, não sentem o sopro sutil da brisa sobre a face, nem seu tacto percebe as asperezas rugosas da árvore milenária ou seus sentidos se regozijam ao contato do orvalho da manhã.

É não vê-la respeitar por quantos estão dotados dos dados para nela construir a forma e a essência do próprio, do possível e da decência.

É compreender a impossibilidade de torcer o curso ao incompreensível processo da realização da verdade que não é nossa nem única, mas da eternidade, da qual fazem parte o todo e todos sem terem sido perguntados, convidados, mas perante cuja realidade ninguém absolutamente se pode negar, fugir, mentir-se, escapar ou fingir.

É o inexorável processo evolutivo do ponto e contraponto, marcando a rota e marcha do mecanismo imponderável, incognoscível, do qual a duras penas nos recusamos a participar conscientemente.

Frustração, grande e profunda frustração, foi principalmente a de um Homem , coroado de espinhos , morto em uma cruz entre dois ladrões, também crucificados, por ter querido apenas interferir no processo redentor, com a lucidez e a profundidade da santidade reveladora:

Um Homem, que consegue dimensionar realidade e dualidade humanas, nos limites de sua fraqueza e na força moral-espiritual da Grandeza, Verdade, Vocação e Vontade Transcendente de Deus : "Pai, tudo Te é possível ! Afasta de mim este cálice, . . . mas faça-se a Tua vontade" . . .

Um Homem, cuja mensagem iniciou um processo complexo e longo de transformação da história , precisamente no período em que ela nos relata a maior mesquinhez, pequenez, sordidez e injustiça, marcando para sempre o antes e o depois. "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem".

A compreensão da incompreensível impossibilidade de torcer o curso à história do que afinal pareceria equação simples: bastaria que a sensibilidade da totalidade holística, entendimento integral dos fenômenos, presente nas potencialidades humanas, se resignasse a entender a tremenda dimensão e diferença contidas na mensagem, essência e conteúdo da vida desse excelso Homem, tão bem expressa na sua alocução na montanha algum tempo antes : "haveis ouvido que foi dito olho por olho e dente por dente, ( puro ego humano) mas um novo mandamento vos dou: AMAI-VOS UNS AOS OUTROS", ( é o ego humano novamente, bem melhor motivado) sem o que não há como santificar e sublimar construtivamente as frustrações humanas, participando eficientemente, num mundo em constante mutação, do processo evolutivo da humanidade.







Erasmo Figueira Chaves
Past-Presidente da A.P.M.L.

sábado, 6 de março de 2010

Posse na APML - 27/2/2010

Cerimônia de posse do novo presidente da A.P.M.L. - Academia Paulistana Maçônica de Letras, Professor Shlomo Zekry, dia 27/2/2010, orientada e presidida por um dos seus lídimos fundadores e presidente de honra da Academia, Dr. Antonio Soares da Fonseca, que depois de eximia condução dos trabalhos ritualísticos e elaborada oração passa a palavra ao presidente da gestão cessante Dr. L. Dalton, para a referida transmissão.

Logo, instado pela presidência faz uso da palavra o past-Presidente Professor Erasmo Figueira Chaves:

Aos que presidem e compõem a mesa, produzindo esta egregora tão propícia, inspiradora e essencial, os meus parabéns! Ao novo e ao Past-presidente imediato o meu abraço e votos de plenitude e felicidade no desempenho de seus ideais maçônicos.
Uma palavra legítima de congratulação e identificação com este momento solene, que envolve inapelavelmente os destinos e significado de nosso sodalício, desejo prazeirosamente proferir, pois trata-se com justiça de reconhecer, de enaltecer, consagrar e ressaltar a missão e sentido da significativa A. P. M. L. e sobretudo aos ideais que a movem, expressos nas “letras” de sua significativa e titular definição: “Academia Paulistana Maçônica de Letras”.

As letras de nossa agremiação não são, nem podem ser quaisquer letras, letras corriqueiras, comuns, vulgares, destituídas do espírito samaritano reparador e construtor, mas certamente são e serão sempre as letras Maçônicas, cristalinamente testemunhais, aquelas que produzem bons frutos, oriundas da alma, mente e coração, cultivadas como um todo harmônico na verdade de fatos concretos, transparentes, translúcidos, límpidos instrumentos e bons documentos, letras abrigadas e latentes num corpo material mas passageiro, missionário e etéreo, DNA traiçoeiro quando não avisa seu possuidor, administrador da transcendência de sua realidade terrena e passageira, letras que Só são imortais quando eivadas de destinos grandes e princípios salutares, cônscias, construtivas, exemplares, expressivas, significativas para a construção da pedra polida, brunida, luzidia, que antes era bruta e rugosa, como a pedra bruta em que Miguel Angel visualizava, previa que naquela brutalidade, o maciço de pedra bruta, a “Pietá” lá estava dentro, “bastava apenas lapidar-lhe os excessos”.

Letras enfim que constituem palavras, palavras que representam gestos, perfis e atitudes, atitudes, expressões, sutilezas, parágrafos, preciosidades oriundas contudo do ser material evolutivo concreto, mas veículo poderoso, instrumental, imaterial, transcendente e civilizador, que da perfeita consciência da animalidade histórica original que o constitui, se torna evolutivamente a expressão da vontade transcendente da criação.

Letras, letras de humildes pedreiros construtores de ogivas materiais, inspiradas no entanto nas linhas ogivais das mãos postas em oração , oração latente, permanente, constante, residente nos ocultos escaninhos de neurônios bem computados, cuidadosa e constantemente alimentados e, na magnificência de coração sensível aos acordes do bom senso e do bem comum, na ação esperançosa transcendente e dignificante, obediente à culta inteligência e à razão evolutiva.

As letras e atos maçônicos precisam estar imunes às influências e contaminações externas de uma civilização espúria, mas contrariamente precisam e devem significar testemunho cristalino, transparente e influência eficaz aos costumes deletérios e comportamentos nefastos externos.

Foi nessa realidade transcendente em que o nosso ilustre irmão Ruy Barbosa, “batalhou o bom combate” durante toda a sua brilhante e significativa vida. Por esses ideais estrebuchou em certo momento histórico de nosso país. Meu comentário se insere e identifica respeitosamente, com a expressão de repúdio ao nefasto tão espontaneamente manifesto por Ruy, em suas sentidas palavras de cidadão moralmente ofendido.

Educação! Educação! Educação ! é o que clama a nação !!! . . .

Essas são as “Letras” que aspiro e propugno para nossa Academia Paulistana Maçônica de Letras”

O irmão Ruy Barbosa: Uma benção. Paladino inconfundível, espírito de justiça, expressividade altruísta e patriótica. Vida totalmente dedicada a construir civilidade, cidadania e civilização. Cabal testemunho de integridade e clarividente inteligência. Um grito de virilidade e lucidez intelectual. Lamento lúcido, conspícuo, espontâneo, sincero de dor que não abala mas afirma lapidarmente profundas, apropriadas e muito pessoais convicções:

“. . . De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar¬¬-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”
Ruy Barbosa – 05/11/1849-01/03/1923

“. . . A pátria não é ninguém: são todos; e cada qual tem no seio dela o mesmo direito à idéia, à palavra, à associação. A pátria não é um sistema, nem uma seita, nem um monopólio, nem uma forma de governo: é o céu, o solo, o povo, a tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade. Os que a servem são os que não invejam, os que não infamam, os que não conspiram, os que não sublevam, os que não desalentam, os que não emudecem, os que não se acobardam, mas resistem, mas ensinam, mas se esforçam, mas pacificam, mas discutem, mas praticam a justiça, a admiração, o entusiasmo. Porque todos os sentimentos grandes são benignos, e residem originariamente no amor. . .” Ruy Barbosa: Palavras à Juventude

QUE MARAVILHOSA CONCEPÇÃO DA DEMOCRACIA REPUBLICANA ! . . .

Podemos nós “imortais” das letras maçônicas ser coadjuvantes e instrumentos na sua difusão? . . .

No entanto esta insigne figura, maravilhoso exemplo de nossa história e incomensurável valor cultural, embora presidindo em frio bronze o plenário do nosso Congresso Nacional, não consegue impregnar os congressistas, com o seu vital exemplo, espírito lúcido, sentido de missão, justiça e palavra mensageira edificante.

. . . (Aliás,quando Ruy Barbosa declarou: “a justiça tardia nada mais é do que injustiça institucionalizada” sequer imaginou a falência moral em que seu País um dia fosse mergulhar.). . .

Outro maravilhoso irmão, no vigor de sua juventude aos 24 anos, mais um entre tantos maçons ilustres, tem a coragem e a dignidade de elevar sua voz clamando e chamando a atenção do todo poderoso José Bonifácio, amigo, ministro e conselheiro do Príncipe e Rei, envergonhado e indignado contra o sistema que permitia o tráfico de escravos:

Andrada, tira esse pendão dos ares”!!! . . .

Coragem, coragem, coragem, autoridade moral, testemunho e ação !!! . . .

Na atmosfera de corrupção e desastres políticos e administrativos por que passa a nação, qual o desafio que se nos apresenta, como representantes das letras maçônicas? Qual o dever ou contribuição que nos é requerida ou de nós esperada?

A propósito, qual era a atmosfera da realidade sociológica imperante nos idos tempos da era Camoniana? Luiz Vaz de Camões, estruturador, depurador da nossa língua, a maravilhosa língua portuguesa com que nos comunicamos e com ela elaboramos, idealizamos, nos realizamos, dizia, em singelos e corajosos versos, à época dos descobrimentos, lá pelos idos de 1550:

. . . “Ao desconcerto do Mundo” . . .

“Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos,
E para mais me espantar
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Buscando alcançar assim,


O “bem” tão mal ordenado
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que só para mim,
anda o mundo concertado!”
. . .
Luiz Vaz de Camões

Cansada está a nação de ver-se constantemente retratada nessa injusta, nada instrutiva pedagogia e confusão desconcertante, nessa autofagia de conceitos entre princípios e regras, produzindo-se o constante deprimente conflito, soberanamente injusto e frustrante sentimento do cidadão comum, em que por mais que faça e imite o comportamento geral, na cândida intenção de acerto, admitido como razão consensual, na ausência de orientação confiável e Rumo Certo, não deixa de errar constantemente e sentir compungido, triste e profundamente

que só para mim, anda o mundo concertado!”. . .
e só ele portanto castigado! . . .
. . . “O favor com que mais se acende o engenho,
Não no dá a Pátria, não,
Que está metida no gosto da cobiça e na rudeza
De uma agastada, insana e vil tristeza” . . .

Luiz Vaz de Camões

Agastada, insana e vil tristeza” numa época de esplendor advinda dos descobrimentos, em que Portugal dominava as rotas marítimas e o comércio mundial.

Ah, mas a bendita ou melhor dizendo, a maldita, maldita e eterna corrupção, grassava então como agora, impedia vôos do espírito de justiça e fraternidade para todos igualmente.

A quem estava falando, com suas mensagens o grande vate? Apenas a seus contemporâneos ? Ou suas mensagens encerram conspícua lealdade a princípios eternos que sempre se esquecem, ou jamais se aprendem de geração após geração? Não está falando-nos pessoalmente hoje? Podemos nós maçons e literatos contribuir de alguma forma para modificar esse status?

Espelhemo-nos e inspiremo-nos no espírito do grande maçon e literato que foi Ruy:

. . . “Porque todos os sentimentos grandes são benignos, e residem originariamente no Amor” . . .(Ruy Barbosa – oração aos moços)

Amor fraterno para com a humanidade, paralelamente ao amor fraterno entre irmãos. Amor que nos impele à ação da coragem, do alerta, da admoestação, da sinalização de escolhos, para a correção de rumos. Amor que nos leve intima e categoricamente a saber que não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. Amor que nos inspire à palavra de contemporização, sempre que a mesma conduza à verdade,à justiça, ao perdão aspirado e à bondade inconfundível desejada, sem qualquer hipocrisia ou cálculo malsão. Amor que em si é autoridade moral. Amor que impregna a alma, a mente e o corpo, inspira a ação apropriada, necessária e de bem fazer. Da mesma forma que a essência do bem sublime da cidadania, da fraternidade e do bem comum, se insere e aufere do extrato essencial do samaritano cristianismo que nos foi ensinado pelo Mestre dos mestres no Sermão da Montanha:

. . . “Haveis ouvido que foi dito – olho por olho e dente por dente,- mas um novo mandamento vos dou:Amai-vos uns aos outros” !!! . . .






Erasmo Figueira Chaves
Past-Presidente da A.P.M.L.