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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

SAUDAÇÃO À BANDEIRA NACIONAL

Pendão Nacional Brasileiro



e. figueiredo (*)

Bandeira do Brasil !

Auriflama de um País, grande pelo trabalho e pelo amor de seus filhos; admirável pelas maravilhas da sua natureza; opulento pela exuberância de sua flora e riqueza do seu solo; hospitaleiro, pela simplicidade e bondade do seu povo; promissor, pelo brilhante futuro que assegura a todos que produzem !

Bandeira do Brasil !

És emblema de uma Nação! És o palpitante coração da Pátria! Onde estás está o Brasil: o verde dos campos, o ouro do sol, o azul dos céus e o branco da paz! És onipresente: do Amazonas ao Rio Grande do Sul! És onipotente, porque não é o dístico de um partido, mas o lábaro de todo um povo!

Bandeira do Brasil !

Nós te honramos com veneração de um culto, com os ofertórios de um ato sacramental! Sempre recolhestes em Ti a tradição de nosso povo! Glória a Ti, imagem viva da Pátria, desta terra privilegiada, que temos de servir diariamente com vocação da disciplina, do trabalho, da renúncia e do sacrifício! Glória aos que te serviram na Paz e na Guerra! Glória aos que se iluminaram no sacrifício, pela tua Grandeza e pela tua Honra.

Bandeira do Brasil !

Quando te exaltamos, nestas horas eucarísticas em que a oratória se torna sagrada, oh! bandeira resplandecente de luzes, pressentimos conosco a presença de nossos heróis; afirma-se em nossa alma a determinação de servir-te sempre e canta em nosso coração a fé transbordante nos destinos da Pátria, que divisamos vitoriosa, percorrendo o itinerário da opulência e do triunfo!

Bandeira do Brasil !

Como prova do respeito à tradicional regra que nos impõe o dever de amar e defender o teu solo; inspira com tua divisa “ORDEM E PROGRESSO” a disciplina que a fraternidade e a evolução, como lei básica da perfectibilidade: lábaro deste Brasil fecundo e prodigioso; símbolo deste Brasil que sentimos como parte do nosso ser, de nossa vida; auriverde pendão desta grande Pátria, nós te saudamos, nós te veneramos, nós te defenderemos!

Bandeira do Brasil !

(Compilado de um texto do livro CHAVE DOS MESTRES,
de Apolinário Pinheiro Moreira)


(*) E. Figueiredo é membro do CERAT – Clube Epistolar Real Arco do Templo e obreiro da A.R.L.S. VERDADEIROS IRMÃOS, No. 669 – Oriente de São Paulo

Nova Colaboração
Quarta, 28 Outubro 2009
No próximo dia 6 de Novembro iniciaremos a publicação de algumas pranchas do I:.Espedicto Figueiredo Rillo, um I:. brasileiro que nos contactou e que é autor de pranchas de elevado conteúdo maçónico. Sendo este um website dirigido à...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O Maçom e o dia 15 de novembro

Alegoria da Repúlica
“Não basta dizer, tem que fazer!”
“Uma liderança se faz por dedicação, atitude e ação”.


Estes jargões muito nos lembram das obrigações que temos como construtores sociais, seja pela busca interior, sejam pelo desenvolvimento filosófico, religioso, ou outro meio intelectual. Em maior reflexão nos envia para a resposta que damos, ou seja, combatemos a ignorância, o fanatismo, buscamos a melhor e maior felicidade para a humanidade.

Dia 15 de novembro nos recorda que vivemos em uma Nação enorme e que tem orgulhosamente o nome de Brasil, até seu formato continental lembra um coração, aliás, um coração que tem grandes tesouros, grandes riquezas humanas, de solo e de subsolo.

A Bandeira brasileira nos lembra que vivemos em um País com 8,5 milhões de quilômetros quadrados, é o quinto em extensão, com razão é chamado mundialmente de país-continente. Então porque admitir tantos erros. Como Maçons temos que nos preocupar em muito com a falta de civilidade, com a falta de respeito às normas e regras constitucionais, de vilipêndios contra o direito e a moral, temos de nos preocupar com aqueles que aviltam a própria organização social e legal.

Lembro de um poema de Olavo Bilac que diz:

‘Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste!
Criança! Não verás nenhum país como este.
Olha que céu! Que mar! Que rios! Que florestas!
A natureza aqui, perpetuamente em festa.
É um seio de mãe, a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! Vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre ramos inquietos.
Vê que luz! Que calor! ...
Criança, não verá país nenhum como este:
Imita, na grandeza, a terra em que nasceste!’


Meus Irmãos, está na hora de fazermos valer o desejo de um mundo melhor, cavando as masmorras contra tudo que está aí, ensinemos e orientemos para que a Nação Brasileira seja renovada na dignidade, na honra, na moral, em virtudes.

A República teve muito em haver com a Maçonaria, assim renovo os votos para que naquele exemplo, este 15 de novembro seja um marco em nossas ações e atitudes.

O Brasil merece respeito, nós merecemos respeito, lembremos da romã que não existem privilégios entre as sementes e todas têm seu espaço e direito garantidos.

São Paulo, 10 de novembro de 2.010


José Paulo Scannapieco
M.I., 33o.



Nota do BLOG

"A Proclamação da República Brasileira(1889) foi um episódio da história do Brasil, ocorrido em 15 de novembro de 1889, que instaurou o regime republicano no Brasil, derrubando a monarquia do Império do Brasil, pondo fim à soberania do Imperador Dom Pedro II.

A Proclamação da República se deu no Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, na praça da Aclamação, hoje Praça da República, quando um grupo de militares do exército brasileiro, liderados pelo marechal Deodoro da Fonseca, deu um golpe de estado, sem o uso de violência, depondo o Imperador do Brasil, D. Pedro II, e o presidente do Conselho de Ministros do Império, o visconde de Ouro Preto.

Foi instituído, naquele mesmo dia 15, um "Governo Provisório" republicano. Faziam parte deste "Governo Provisório", organizado na noite de 15 de novembro, o marechal Deodoro da Fonseca como presidente da república e chefe do Governo Provisório, marechal Floriano Peixoto como vice-presidente, e, como ministros, Benjamin Constant, Quintino Bocaiuva, Rui Barbosa, Campos Sales, Aristides Lobo, Demétrio Ribeiro e o almirante Eduardo Wandenkolk, todos membros regulares da maçonaria brasileira."


Para ler o artigo completo, clique nesse link.

domingo, 7 de novembro de 2010

A RESPONSABILIDADE DA MAÇONARIA BRASILEIRA NA SOCIEDADE ATUAL


Escrito por João Baptista de Oliveira (JB)

PRIMEIRAS PALAVRAS

O assunto não é novo.

Já me ocupei dele em ocasiões anteriores. Isto, entretanto, não o torna menos atual nem menos importante.

O Brasil atravessa uma fase das mais críticas de seus 500 anos de história.

Dentre as muitas crises que o assolam, destaca-se a banalização da vida humana.

Tanto no sentido social — com a assustadora e crescente quantidade de pessoas padecendo fome e miséria — como no sentido físico, em que a violência de todo tipo mata mais do que guerras declaradas.

Frente a esse cenário de preocupação, perturbação e angústia, uma instituição que se dedica à construção do edifício moral da sociedade não pode omitir-se, sob pena de negar seu glorioso passado, sua tradição humanista, e sua razão de ser, sintetizada na trilogia que a identifica em todo o mundo.

INTRODUÇÃO HISTÓRICA

Descoberto “acidentalmente” em abril de 1500, no último ano, portanto, do século XV, ao chegar aos primórdios de 1800, o Brasil já amargava nada menos que três séculos de dominação estrangeira.

Ao longo desse período já se formara, lenta — mas progressiva e indelevelmente — o sentimento de brasilidade, que vai despontar na história com a designação de “sentimento nativista”.

Sua manifestação marca-se, fortemente, no século XVII, nos episódios de reação contra os invasores franceses e holandeses, e, especialmente, nas Batalhas de Guararapes, de 1648 e 1649.

É quando, pela primeira vez, fala-se em uma “tropa brasileira”, integrada por elementos das três raças formadoras do povo brasileiro: o branco, o índio, e o negro, sob o comando de André Vidal de Negreiros, Felipe Camarão e Henrique Dias.

Em homenagem a esse importante feito, o Dia do Exército passou a ser comemorado em 19 de abril, data da primeira Batalha de Guararapes.
Além, já no século XVIII, surgem várias manifestações pró-independência, destacando-se, entre outras, as insurreições de Felipe dos Santos, esquartejado em Vila Rica em 1720, e de Tiradentes, enforcado em 1792.
Data desse período, de inegável busca de autonomia nacional, a gênese da Maçonaria no Brasil.

A este respeito traçamos  há algum tempo  um ensaio que, por oportuno, reproduzimos a seguir.

“A TRILOGIA INACABADA”.

1. A VEZ DA LIBERDADE

É fato incontestável que a instituição maçônica chegou ao Brasil bafejada pelo anseio de liberdade política do país.

Desde sempre liberdade e maçonaria caminham lado a lado.

Jovens brasileiros que estudavam na Europa e na América do Norte, tomando contato com o ideal libertário que originara a Revolução Francesa (14.07.1789) e a Independência dos Estados Unidos (04.07.1776), empolgaram-se com a perspectiva de propiciar ao Brasil sua tão sonhada autonomia política.

Em pouco tempo detectaram — no embrião desses movimentos — a presença silente, ativa e constante da Maçonaria, fiel à sua trilogia: LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE.

A partir daí a campanha passa a ser comum, e a independência do Brasil se efetiva muito mais pela força da persuasão que pelo poder das armas.

Tanto isto é certo que o sete de setembro — data bonita e memonicamente propícia — marca a proclamação pública de nossa independência que, segundo informam ilustres historiadores, fora “data e traçada” no dia 20 de agosto — atual “dia do maçom” — no interior do Grande Oriente do Brasil.

Como conseqüência direta desse entendimento sobranceiro e fraterno, poupou-se o país do pesado e nefasto ônus de mortes, viuvez e orfandade.
O Brasil, a partir de 7 de setembro de 1822, passa a integrar o concerto das nações livres do mundo!

2. A VEZ DA IGUALDADE

No país livre, entretanto, nem tudo era liberdade.

Seres humanos tão dotados de sensibilidade, inteligência e capacidade quanto os demais, eram cruelmente discriminados, humilhados, maltratados, animalizados e, até, assassinados, meramente em razão da cor de sua pele, como se a pigmentação lhes negasse a condição de “imagem e semelhança de Deus!”.

Esse comportamento anti-social, destoante dos princípios de uma “sociedade filosófica, filantrópica e progressista, que pugna pela igualdade de direitos entre os homens, quaisquer que sejam suas características de cor, sexo, convicção religiosa e política” — não podia receber senão sua repulsa e inconformação.

Isso posto, a Maçonaria empalma uma nova e gloriosa bandeira, desenvolvendo a pertinaz e silenciosa luta que — passando pelas leis Do Ventre Livre (1877) e Do Sexagenário (1885) — culminou com a LEI ÁUREA que, promulgada em 13.05.1888, libertou uma raça e redimiu toda uma nação.
Outra não poderia ser a atitude de uma Instituição que, em cada reunião, mostra através do Pavimento Mosaico — branco e preto — a harmonia dos contrastes.

3. AINDA A VEZ DA IGUALDADE

Liberto o Brasil da vergonhosa pecha de “país escravagista”, competia eliminar da vida nacional uma segunda discriminação: a oriunda do sangue.
Os postos mais elevados da hierarquia organizacional do país eram indiscutível privilégio dos nobres — tivessem ou não capacidade — em detrimento dos plebeus — tivessem ou não capacidade.

Vanguardeira das lides justas, cabe à maçonaria conduzir — em paz e harmonia — o processo de modernização do Brasil, levando-o da monarquia dos oligopólios feudais à democracia da ampla isonomia, em que “todos são iguais perante a lei”.

4. A HORA DA FRATERNIDADE

Esta última porfia maçônica — a Proclamação da República — teve seu coroamento em 15 de novembro de 1889, portanto há mais de um SÉCULO!
E de lá para cá, o que temos feito?

Batido malhete!

Damo-nos por satisfeitos com as glórias do passado e julgamos que está tudo consumado!

Tudo justo e perfeito!

Estará?


É evidente que não.
A trilogia está inacabada.
Temos a LIBERDADE. (Temos?)
Temos a IGUALDADE. (Temos?)
Mas... e a FRATERNIDADE?

É ocioso dizer que sem a fraternidade, a igualdade e a liberdade são utopias.

Tem LIBERDADE a cidadão que se cerca de muros e grades temeroso de assaltos, roubos, violência e seqüestros?

É livre quem não ousa sair à noite, ou andar por certas áreas, ou deixar a porta de sua casa aberta?

Há IGUALDADE num país em que muitos têm tão pouco, que sofrem fome, frio, miséria e doenças — enquanto poucos têm tanto que até sua quinta geração não conseguirá gastar?

E o que dizer daqueles que — nascidos na mesma pátria amada Brasil, aquecidos pelo mesmo sol da liberdade — não se pejam de explorar seus irmãos de nacionalidade, impondo-lhes juros escorchantes; ou auferindo lucros indevidos e exagerados; ou desprezando os princípios comezinhos da ética profissional e moral; ou tratando os humildes com desprezo, prepotência, rispidez, insensibilidade e preconceito — declarado ou velado?

Não será este o momento de os maçons de hoje deixarem de tecer loas aos gloriosos feitos do passado — concretizados por seus antecessores — e realizar algo HOJE, para deixar de herança à sua posteridade?”

O PANORAMA ATUAL

Interrompo a transcrição do texto nesta pergunta-desafio porque sei que ela suscita outras indagações: O QUE FAZER? COMO?

Consideremos: a gritante desigualdade sócio-econômica existente no país não afeta apenas a parcela menos favorecida da sociedade.

Esta sem dúvida, sofre cada dia mais o pesado fardo de sua incapacidade financeira.

Proliferam favelas e barracos por toda a parte, e é cada vez maior o número de pessoas morando nas ruas e nos baixos de viadutos e de pontes. Aumenta também, a olhos vistos, a quantidade de mendigos, pedintes, desocupados, vendedores de bugigangas, “marreteiros”, prostitutas, meninos de rua, desempregados, marginais, “trombadinhas” e que tais. São multidões que passam mal, moram mal, alimentam-se mal, trajam-se mal — vivem mal, enfim — não sendo de estranhar que muitos passem a comportar-se mal, atraídos pelo chamariz do furto, do assalto, do tráfico e de outros crimes.
Suas crianças dificilmente entenderão — e menos ainda aceitarão — a abissal diferença entre sua negra miséria e a excessiva opulência das crianças ricas, o que certamente virá a ser o germe da cobiça, da revolta, do ódio e da violência.

E é aqui, precisamente, que os extremos se tocam.

Nascida nos focos de pobreza e miséria, a violência começa por fazer vítimas ali mesmo.

São agressões violentas, espancamentos, homicídios, guerras de gangues, balas perdidas, chacinas. Na Grande São Paulo esse tipo de violência contra a vida, aliás, subiu de 49 casos com 168 mortes em 1995, para 88 chacinas com 302 homicídios em 1999! Só no período de 1º de janeiro a 8 de março do ano seguinte (2000) ocorreram 21 chacinas com 73 mortes! (Isto levou o Departamento de Homicídios (DHPP) a criar, em 18 de fevereiro de 2000, a EQUIPE ESPECIALIZADA EM INVESTIGAÇÃO DE HOMICÍDIOS MÚLTIPLOS — O GRUPO ANTI-CHACINA.)

No pólo oposto - nas áreas de riqueza e abastança - predominam roubos, assaltos, latrocínios e seqüestros, todos, invariavelmente, marcados por extrema violência — quase sempre desnecessária e gratuita.

Vão longe os tempos em que ladrões furtavam, sorrateiramente, na calada da noite, fugindo ao menor sinal da aproximação de alguém.

Hoje são raros os furtos e freqüentes os roubos e assaltos, praticados à luz do dia, com tanta violência e agressividade que se pode ler o ódio e a revolta represados nos corações de seus praticantes — muitos dos quais menores, crianças.

A conclusão é óbvia: cada vez mais o nosso bem-estar depende do bem-estar dos outros.

Somente diminuindo o abismo existente entre os extremos sociais, caminharemos para o equilíbrio, evitando que a prosperidade seja uma minúscula ilha cercada por violentas ondas de miséria prestes a sufocá-la.

O QUE DEVE FAZER A MAÇONARIA?

Para continuar a influir na história — como sempre o fez — deve a Maçonaria sair da contemplação e vir para a PARTICIPAÇÃO.

Que participação?

Inicialmente a PARTICIPAÇÃO POLÍTICA

Não, evidentemente, em seu aspecto político-partidário, contrário aos nossos princípios, mas na acepção ampla e autêntica de política como a define Platão: “a ciência do bem comum”.

Por um lado, temos maçons presentes em todas as esferas do poder público — especialmente no Legislativo.

Todos prestaram compromisso de fidelidade aos postulados da Ordem. A Maçonaria pode e deve, portanto, acioná-los no sentido de que tais princípios sejam aplicados no trato das questões públicas, prevalecendo sobre interesses pessoais, grupais ou partidários.

Por outro lado, a própria Instituição goza do prestígio de entidade séria, honrada e respeitável junto ao mundo profano. Em conseqüência, qualquer exercente do poder público — do Executivo, Legislativo ou Judiciário — que receba um documento subscrito pela Maçonaria, o terá em grande consideração.

Esta participação, delicada como se sabe, deve ser orientada por um CONSELHO DE PARTICIPAÇÃO POLÍTICA ativo, bem-formado e bem-informado a quem caberá analisar o momento político e decidir pela oportunidade, natureza e intensidade de cada manifestação da Ordem, acompanhando seu desenrolar até o final.

O importante é não haver nem OMISSÃO nem DESCONTINUAÇÃO.

Outra indispensável área é a da PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA.

Onde quer que haja uma agremiação aberta à comunidade, a Maçonaria TEM de estar presente e atuante, como “o pouco de fermento que leveda a massa”, na expressão bonita de São Paulo.

Conselho Comunitário de Segurança; Conselho Comunitário de Saúde; Conselho Tutelar do Menor; Associações Comerciais e Industriais; Rotary e Lions Clube; Sociedades Amigos de Bairro; APM’s; Santas Casas de Misericórdia; entidades associativas e de classes profissionais; programas de parceria com o poder público etc. são alguns exemplos de oportunidades de participação comunitária.

A cada dia cresce o poder de influência dessas corporações junto aos governantes. E é imprescindível que a Ordem aí esteja.

Registra-se hoje, na área de segurança pública, o chamado POLICIAMENTO COMUNITÁRIO, que coloca lado a lado a polícia e a comunidade em uma parceria bem sucedida. É fruto da insistente atuação da população através dos Conselhos Comunitários de Segurança, Núcleos de Ação Local, Associação Comercial e outras entidades. Dando acolhida e consecução a essa iniciativa, a Policia Militar do Estado de São Paulo criou e implementou um DEPARTAMENTO DE POLÍCIA COMUNITÁRIA na corporação.

Por fim, cabe enfocar a PARTICIPAÇÃO COOPERATIVA.

Não é difícil perceber que na base dos problemas apontados predomina o caos social, efeito de um amplo universo de causas, como:

Desestruturação familiar; desemprego galopante (cerca de dois milhões de desempregados na região metropolitana de São Paulo!); despreparo profissional; escassez de vagas escolares; alto índice de evasão e repetência nas escolas; crescente número de menores em situação de abandono (dados recentes do IBGE registram 32 milhões nesta situação no país!); incapacidade do poder público para cumprir sua função social nos campos da saúde, educação, transportes, habitação, previdência social e segurança (Na área prisional, por exemplo, vive-se o paradoxo de 175.000 vagas comportando cerca de 240.000 presos — o que torna cada cadeia um barril de pólvora, prestes a explodir! Acresça-se a este número cerca de 300.000 mandados de prisão por cumprir e algo em torno de 400.000 processos penais em andamento, de que resultarão, obrigatoriamente, novas ordens de prisão...). E aqui ocorre um sério paradoxo: se todos os mandados forem cumpridos, onde colocar os presos? Se, por outro lado, não forem cumpridos, toda a máquina da Justiça está brincando de “faz de conta”...

COMO AGIR COOPERATIVAMENTE

Contemplando essa dramática realidade, é inaceitável que não façamos algo. Já!

É tão grande e diversificada a necessidade, que qualquer coisa — por pequena que possa parecer — representará sensível ajuda para melhorar — ou pelo menos “despiorar” a crítica situação nacional.

Nesse sentido, seria desejável e oportuno que cada Loja se convertesse em um NÚCLEO DE AÇÃO SOCIAL, cumprindo uma ou mais funções de amparo, orientação e ajuda em relação à sua comunidade.

À guisa de sugestão, podemos enlistar:

Programas de alfabetização de adultos. Cursos de orientação profissional.Programas de orientação vocacional para jovens. Cursos de iniciação profissional: office-boys; auxiliares de escritório; auxiliares gerais; rotinas de empresa etc. Cursos de primeiros socorros. Cursos breves de iniciação a marcenaria, carpintaria, mecânica etc. Programas orientacionais de saúde, higiene pessoal, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis; prevenção de drogas; recuperação de drogados e alcoólatras etc.

Programas de apoio a creches, asilos, orfanatos e educandários. Programas motivacionais para escolares com premiação por trabalhos, concursos e jornadas estudantis. Programa de motivação cívica. Instituição de programas de amparo ao menor, como o CAMP — Círculo de Amigos do Menor Patrulheiro e assemelhados. Programas de parceria com o poder público para suprir deficiências educacionais, familiares etc.

Se outra coisa não puder ser feita, basta que cada Oficina abra em seu espaço um CURSO DE ALFABETIZAÇÃO DE ADULTOS, o que será suficiente para melhorar a qualidade de vida de muitos brasileiros. Poderão implementar também CURSINHOS PRÉ-VESTIBULARES, assim como CURSOS SUPLETIVOS, a custo zero ou reduzido, para jovens de baixa renda. Não faltarão Irmãos aposentados ou com tempo disponível para isso. Se não, basta pedir “a ajuda dos universitários”... Nossos jovens estão ávidos por fazer alguma coisa útil e em seus corações vibra ainda o ideal, que já não vive em muitos dos idosos...

Também na Ordem devem se constituir CONSELHOS, reunindo irmãos de acordo com sua atividade profissional, formação, experiência ou conhecimentos, de modo a se ter “as pessoas certas nos lugares certos”.

Entre outros, um CONSELHO DE ASSUNTOS JUDICIAIS (OU JURÍDICOS) poderia ter a seu cargo todo o acompanhamento da situação dos presídios, reexaminando processos, recorrendo nos casos cabíveis, analisando fichas prisionais (há inúmeros casos de pessoas que já cumpriram suas penas e permanecem presas) e trabalhando pela ressocialização dos presidiários — objetivo final raramente obtido pelo sistema.

O momento atual, porém, apresenta um problema, um desafio, ainda mais grave e premente, no qual já se acha atuando a Ordem Maçônica.

Trata-se do avanço crescente e incontido das DROGAS!

Já não mais no meio dos jovens, mas no seio da INFÂNCIA, vitimando, em pleno início de vida, as crianças da Escola Primária - outrora “risonha e franca!”

A sociedade, em sua paquidérmica acomodação, reclama, protesta, vocifera, mas NADA FAZ, atribuindo toda responsabilidade de ação ao Governo.
Este, por sua vez, tem se mostrado insensível, indiferente, ineficaz e incompetente em relação a algo que, embora tão sério, não lhe dá dividendos políticos.

Paralelamente a esse problema corre outro que a ele se liga e o alimenta: A INFLUÊNCIA PERNICIOSA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO! Ninguém de bom senso duvida de que a TELEVISÃO, por excelência, é um instrumento diabólico de estímulo aos vícios, à violência, aos desregramentos sociais, à permissividade sexual e aos crimes em geral.

Filmes, novelas, noticiários, programas de entretenimento é até desenhos animados — outrora inocentes — hoje são verdadeiras aulas ilustradas de tudo o que não presta!

Basta citar exemplo: no dia 4 de fevereiro de 2000, em Brasília — após assistir ao filme “Brinquedo Assassino 2” — um garoto de apenas 9 anos agrediu uma menina de 7, com mais de vinte golpes de faca!

Toda a sociedade sabe, sem sombra de dúvida, do desastre moral que a televisão representa para nossas crianças.Entretanto, nenhuma ação para impedir isso surge das pessoas ou do governo!

A esperança de solução, portanto, não está no “Poder” Público — impotente e desinteressado. Nem na sociedade ampla — inerme, inerte e aturdida — mas nos GRUPOS SOCIAIS ORGANIZADOS, que são estruturados, conscientes, lúcidos e ativos.

E é nesse universo de lucidez altruística e realizadora que desponta a Maçonaria como instituição séria e respeitada, que sempre teve, tem e terá profundos e nítidos compromissos com o bem-estar da Humanidade. Assim como proclama sua autodefinição: “sociedade filosófica, filantrópica e progressista!”.

CONCLUSÃO

Retomo aqui o texto do ensaio para concluir o tema.

LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE não é, de forma alguma, uma trinômia de elementos independentes. Ao revés, é um todo uno e indivisível.
E assim como o tripé não se sustém sem a ação conjunta dos três esteios, a Sublime Instituição não poderá cumprir plenamente seu desiderato de construção do edifício moral da sociedade sem o acoplamento de seu terceiro elemento.

Em um Brasil em luta e transição, em um Brasil envolto em dívidas e dúvidas, o prosseguimento da luta firme, serena e fraterna da Maçonaria é absolutamente indispensável.

Não pela LIBERDADE.

Nem pela IGUALDADE.

Mas pela FRATERNIDADE, que as unifica, completa e viabiliza, confirmando as meigas palavras de David, o Rei-Poeta:

“O QUÃO BOM E QUÃO SUAVE É QUE OS IRMÃOS VIVAM EM UNIÃO... PORQUE ALI O SENHOR ORDENA BÊNÇAO E A VIDA PARA SEMPRE. ”



JOÃO BAPTISTA DE OLIVEIRA, Grau 33.:, é Obreiro ativo das AA.:RR.:LL.:SS.: Carlos Gomes e Madras, e Past-Master da Loja Antonio Simões Ladeira. Foi Grande Secretário de Orientação Ritualística, Presidente da Comissão Pró-Civismo e membro do Ilustre Conselho Estadual do Gr.: Or.: São Paulo. Na vida profana, é Conselheiro Seccional e Presidente da Comissão de Relações Corporativas e Institucionais e membro da Comissão de Inscrição da OAB São Paulo; Membro-fundador do INQJ – Instituto Nacional da Qualidade Judiciária; foi Presidente do Conselho Comunitário de Segurança do Centro de São Paulo; foi Presidente da Comissão Coordenadora do Programa Centro Seguro; Membro da Ação Local Paissandu; Conselheiro da Associação Comercial de São Paulo—Distrital Centro; Conselheiro Consultivo da AMITUR – Associação dos Municípios de Interesse Turístico do Estado de São Paulo; Diretor Cultural da Sociedade Amigos da Segunda Divisão de Exército - SASDE; Conferencista da ADESG e Sócio-Fundador e Vice-Presidente do Rotary Clube de São Paulo—Sé; Membro da Academia Cristã de Letras; da Academia Paulistana Maçônica de Letras e da Academia Maçônica Internacional de Letras. Membro do Instituto Histórico de Geográfico de São Paulo.

Na atividade profissional é Consultor Empresarial e Educacional, Professor de Comunicação, Marketing e Vendas, e Conferencista. Autor dos livros “FALAR BEM É BEM FÁCIL”, “COMO PROMOVER EVENTOS — CERIMONIAL E PROTOCOLO NA PRÁTICA”, “MENSAGENS E TEMAS PARA MEDITAR” e “INSPIRAÇÃO”. Produz e apresenta o Programa “O Poder da Palavra”, pela Rádio Mundial FM, aos domingos às 17h30.

Brasil - 188 de Independência

Manuel Beckmann - o Cristão-Novo que Antecedeu Tiradentes

188 é um numero carismático, desperta uma sensação cartesiana de perfeição, rigor, beleza matemática, emblemática lembrança da nossa Independência. Deveríamos anotá-lo em nossos papéis, cartas, documentos. Carimbá-lo em envelopes, fazer cartazes, enfim, é um número nobre que merece ser lembrado a cada dia do ano.

Há 188 anos José Bonifácio, o Patriarca da Independência, da Tribuna do Grande Oriente do Brasil na Rua do Lavradio conclamou os maçons e a sociedade – era chegado o momento.

Anoitecia o 20 de agosto de 1822, Dia do Maçom. Neste dia, mais de um século depois, por coincidência seria fundada a ESG. Mas na Cabalá está escrito que não existem coincidências ...

Poucos dias depois, a 7 set, D Pedro I declarou o Brasil emancipado de uma vez por todas de Portugal.

"Se todos quisermos – dizia-nos Tiradentes, aquele herói enlouquecido de esperança - poderemos fazer deste país uma grande nação. Vamos fazê-la." Assim falou Tancredo Neves.

Mas antes do conhecido proto-martir da Independência, alguém já havia se erguido contra o estado lusitano.

Manoel Beckmann, o Bequimão como os maranhenses o chamavam acabou enforcado por rebelar-se contra o Estanco – monopólio comercial de azeite, farinha, vinho, bacalhau, imposto pelos portugueses.

Português, brasileiro, maranhense, mas também cristão-novo. Seria assim o verdadeiro proto-martir de nossa independência, com todo o respeito que devotamos à memória de Joaquim José e demais Inconfidentes da Vila Rica.

O então governador-geral Gomes Freire de Andrada fez executar a ordem judicial do enforcamento. Beckmann hoje é nome de ruas, cidades, escolas no Maranhão. Mas quem sabe, quanto do bom e velho sangue judaico corria em suas veias ...

Os 188 anos são um Memorial a nossa Independência, e representam a garra do brasileiro trabalhador que leva este país para frente, a fazer deste pais uma grande nação.

Como o desejou Tancredo Neves, e como desejamos todos nós.

Em outros 12 anos que o Brasil de 2022 tenha caminhado bastante nesta direção, que nos 200 anos da Independência sejamos aquele país com que sonhava Tancredo.




Israel Blajberg

7 de Setembro de 2010

Pendão Nacional Brasileiro



e. figueiredo (*)

O gesto heróico de Dom Pedro I às margens do riacho Ipiranga, em São Paulo, que assegurava ao Brasil o direito de figurar entre as nações independentes por todo o resto da História, está completando, exatamente, 188 anos, que foi o grito INDEPENDÊNCIA OU MORTE !.

O então príncipe-regente abria, de forma definitiva, as portas do futuro do Brasil, iniciando o despertar para a sua própria grandeza, que já se divisava. Muito mais que um simples ato simbólico, foi a luz que fez com que o nosso país descobrisse a si mesmo, e, desse o primeiro passo para ser a potência respeitada que é hoje !

No dia 7 de Setembro de 1822 Dom Pedro permitiu, presenciado pelos brasileiros da época, o direito de sermos livres e dispor sobre nós mesmos, segundo a sua própria vontade e determinação. Foi o início do processo de se livrar da condição de colônia e buscar a emancipação política perante o mundo.

Em 1889, 67 anos após o “Grito do Ipiranga”, é derrubada a monarquia e proclamada a República Federativa do Brasil. Instaurada a República, dá-se o início da consolidação do espírito de brasilidade que ficou arraigado, para sempre, em todos nós.

Nós, os brasileiros de hoje, entendemos a grandeza daquele gesto, o qual é nosso dever preservá-lo, para que o Brasil possa, cada vez mais, prosseguir em sua marcha para que não deixe de ser a grande nação que se tornou !

Não podemos, pois, nunca deixar de exaltar o mais significativo dia da nossa história, que é a data de 7 de Setembro !



(*) E. Figueiredo - é jornalista - Mtb 34 947

“Oh ! Quam bonum est et quam jucundum, habitare fratres in unum !”






sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Um século de letras

Em 27 de novembro de 1909, um médico do Rio de Janeiro, mas radicado em São Paulo, instalava a Academia Paulista de Letras. Doze anos antes Machado de Assis dava à luz a Academia Brasileira de Letras, que seria inspiração para as que surgiriam nas diversas unidades da Federação e tivera a francesa por modelo. O propósito dessas confrarias era congregar pensadores para implementar - ao menos no mundo das letras - o federalismo, de tão difícil consecução na República neófita.

Continua polêmica a ideia de academia de letras. O academicismo é expressão com fisionomia pejorativa. Tem conotação de pedantismo, de anacronismo, postura infensa a inovações. Pode ser utilizada como sinônimo de um espírito convencional, pouco criativo, artificioso e pretensioso. Daí o repúdio de alguns literatos que se consideram libertos e já posicionados acima das vãs gloríolas acadêmicas.

Nada obstante, a ideia de academia ainda atrai uma tribo de espécimes singulares. Na volúpia de uma era do efêmero, da incerteza, do descartável e cada vez mais transitório, é saudável um espaço para a reflexão e o debate. As sessões da academia podem ser pós-graduação em literatura, filosofia ou especulação científica, se vencida a estiolante opção pela mera leitura de atas das sessões anteriores. Desde que assumi a condição de titular da Casa de Cultura do Largo do Arouche, aprendi muito com as preleções de Miguel Reale. Espírito superior, talentoso e genial em todas as esferas de uma atuação prolífica e duradoura, dissertava sobre temas permanentes e nunca deixou de prestigiar as reuniões das quintas-feiras.

Mero perpassar d"olhos pelos nomes que honraram a Academia Paulista de Letras permite concluir que ela foi o repositório da intelectualidade bandeirante. Mencione-se, por mera e aleatória amostragem, a presença de Alcântara Machado, Macedo Soares, Cândido Mota, Alfredo Pujol, Mário de Andrade, Washington Luís, Goffredo da Silva Telles, Plínio Salgado, Honório de Sylos, Aureliano Leite, Paulo Setúbal, Cassiano Ricardo, René Thiollier, Maria de Lourdes Teixeira, Arrobas Martins, Sud Mennucci, Roberto Simonsen, Ibrahim Nobre, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Ricardo Ramos, Julio de Mesquita Filho, Ataliba Nogueira, Spencer Vampré, Alfredo Buzaid, Altino Arantes, Afonso Taunay, Sérgio Buarque de Holanda, Vicente de Carvalho, Monteiro Lobato e Menotti Del Picchia. Quem pode recusar a essa instituição o dom de congregar o que de melhor produziu a cultura de São Paulo?

Os objetivos de sua permanência continuam fiéis ao ato criador - a tutela do vernáculo, o estímulo à escrita e à leitura -, mas ela não pode fugir aos novos reptos. A República Federativa do Brasil ainda não chegou ao estágio republicano ideal, nem ao grau de federalismo que reflita aliança baseada na igualdade democrática. Tudo isso pelo déficit de maturidade política, mas sobretudo pela deficiência da educação.

Confundir educação e escolarização formal foi característica presente no decorrer destes 120 anos de vivência de um regime que tem muito a se aperfeiçoar até que se aproxime dos anseios da nacionalidade. O processo de autoaprimoramento é compromisso perene e definitivo. Continua válido o comando oracular que Sócrates perpetuou sob a fórmula "conhece-te a ti mesmo". Perscrutar o infinito universo da consciência humana e decifrar o enigma do destino dessa espécie que se considera a única racional é a missão de que a lucidez não se pode descuidar.

A academia tem algo a oferecer a esse projeto de disseminar a prática da reflexão e fortalecer a opção pela educação permanente. Seus integrantes já não precisam submeter-se ao ritual imposto a quem se proponha a conquistar espaços. Eleitos pelos pares, já tiveram avaliado o seu currículo. Podem se entregar, sem o estigma da competição, à especulação desvinculada de outros objetivos que não o deleite intelectual. Podem e devem ser motivados a repartir suas habilidades e experimentos com uma legião de destinatários. Partilhar o conhecimento com a infância e a juventude já constitui opção de vida de alguns acadêmicos. Não é impossível contaminar os demais, vencido o núcleo de resistência que ainda enxerga o convívio acadêmico sob a ótica de um clube fechado, sem compromisso algum com a comunidade.

Não é esse o espírito da maior parte dos membros da Academia Paulista de Letras neste ano de seu centenário. Eles prestigiaram a tese de que é urgente devolver à comunidade o amealhado em décadas de aquisição de sapiência. Por isso participaram da verdadeira perestroika desta gestão. Acataram o chamado ao protagonismo, que se traduziu em presença física a dezenas de reuniões realizadas nos mais distintos auditórios. Poder público, instituições parceiras, organizações, empresas e espaços os mais variados conviveram o ritual acadêmico das sessões semanais.

A Academia Paulista de Letras foi reconquistar a atenção de São Paulo, mostrou-se viva e disposta a assumir papel reforçado no despertar de uma consciência renovada. A consciência de que um povo que não lê e não escreve tende a persistir na servidão incompatível com o supraprincípio da dignidade da pessoa humana. Uma vez detectada essa vocação, que durante algumas décadas foi acometida de parcial letargia, ela nunca mais será a mesma. Não se consegue segurar o vento com as mãos. Neste caso, o vento saudável da renovação, animada pelo voluntarismo de fazer a diferença na cena cultural de uma unidade federativa com a exuberância e a complexidade de São Paulo.

Mercê desse despertar consciente e motivado, a Academia Paulista de Letras prestará fecunda contribuição à causa cultural da Nação e nunca mais será o mesmo cenáculo de tempos idos. Nobre, sim. Gratificante, não menos. Mas propenso a uma autossuficiência inviável em tempos de partilha, de solidariedade e de construção conjunta de um promissor destino comum.

José Renato Nalini, desembargador do Tribunal de Justiça de
São Paulo, é presidente da Academia Paulista de Letras


Publicado no jornal "O Estado de São Paulo" - Sexta-Feira, 27 de Novembro de 2009

domingo, 15 de novembro de 2009

JORGE de SENA










Colaboração enviada pelo mui estimado amigo, Irmão e Confrade

Bernardo Martins Pereira

Ilustre Presidente Internacional da Academia Maçónica Internacional de Letras - AMIL

Lisbôa, Portugal.


Intróito

Jorge de Sena era filho Único de Augusto Raposo de Sena e Maria da Luz Grilo de Sena. Nasceu em Lisboa em 02 Novembro de 1919. O Pai era Açoriano e a Mão Beirã, natural da Covilhã. O Pai, Comandante da Marinha Mercante. A Família da Mãe, de Origem Transmontana, Cristãos Novos, Judeus “convertidos”. Eram Famílias da Alta Burguesia. A Avó materna era pessoa muito culta e viria a ter grande influência em Jorge de Sena. A Avó Paterna era amiga de Fernando Pessoa, o qual Sena viu várias vezes lá em casa, quando ainda não imaginava quem ELE fosse. Sena cursou o Liceu no Colégio Vasco da Gama que virou Colégio de Freiras e terminou por isso os estudos liceais, no Liceu Camões. Que coincidência interessante! Veremos à frente a importância de Sena, na divulgação, análise e “TRADUÇÃO”, da obra de Luis de Camões. Da Poesia? Outra coincidência! Um dos seus Professores no Liceu Camões, na disciplina de Físico-químicas, era um jovem em inicio de carreira, chamado RÓMULO DE CARVALHO, que viria a ser o Grande Poeta Antonio Gedeão. “Não é GEDIÃO”. Ingressa na Escola Naval, como n.º 1 do curso. Como Oficial Cadete, visita Cabo Verde, São Tomé, Brasil, Angola, Ilhas Canárias. É demitido da Marinha de Guerra. “Mau feitio” segundo os ditames do Estado Novo. Entres as Batalhas Familiares para seguir a carreira das Armas e os defensores das Profissões Liberais, houve uma solução de compromisso. A Engenharia! Que completou em 1944 na Faculdade de Eng. Do Porto. Começou a escrever em 1936, (mal!) e de 1936 a 1939, vai desenvolvendo sua cultura literária, sem qualquer convívio com os meios respectivos e quando A PRESENÇA publicou em 1939 o poema APOSTILHA, de Álvaro de Campos, como inédito, enviou uma carta chamando a atenção que esse poema havia sido publicado vários anos antes, no NOTICIAS ILUSTRADO, com variantes. A seria publicada, por simbólica coincidência, no último numero daquela revista, em Fevereiro de 1940. Troca a esse propósito correspondência com Adolfo Casais Monteiro, que havia acusado a recepção da carta e viria a dar origem a uma entrevista no 1.º andar do “falecido” café chave D’ouro no Rossio, (ou Praça dom Pedro IV (ou Dom Pedro I para o Brasil), local que então era O CENTRO DO MODERNISMO. Havia várias Presidências de mesa, ao tempo CORDIALMENTE HOSTIS umas ás outras, e que eram regularmente ocupadas por Gaspar Simões, Casais Monteiro, e José Osório de Oliveira. Foi aí que Sena conheceu “OS RAPAZES” dos cadernos de poesia. É no segundo n.º desta publicação, que são impressos os seus primeiros poemas, sob o Pseudónimo de Teles de Abreu (apelidos seus de família). Estávamos em 1940. Em 1945, Sena começa a exercer o cargo de Eng.º na Direcção Geral dos Serviços de Urbanização e na Junta Autónoma das Estradas, para cujo quadro entrou, e do qual viria a sair em 1959 ao fixar residência no Brasil. Só em 1952 é que sai para a Europa, numa viajem a Inglaterra. Desde então, viajou muito por Espanha, de novo Inglaterra, Bélgica, e França. Convidado a tomar parte no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, pela Universidade da Bahia e pelo Governo Brasileiro, em Agosto de 1959, partiu para o Brasil, onde aceitou o convite para ficar como Catedrático contratado de Teoria da Literatura, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de ASSIS, Estado de São Paulo. Em 1961, transfere-se para a Faculdade de Filosofia, Ciências e letras de ARARAQUARA. Viria a licenciar-se do cargo, em 1965 para aceitar o convite dos Estados Unidos da América, tendo pedido a demissão do cargo em 1967, para se fixar nos EE.UU. No Brasil deu cursos ou Conferencias em na UNIVERSIDADE DO BRASIL, do RECIFE, CEARÁ, MINAS GERAIS, BAHIA, e fez parte da comissão do Ministério da Educação Nacional que propôs a reformulação dos CURRICULA superiores de letras. Na Universidade de São Paulo, foi membro de vários júris para Doutoramento, livre docência, e Cátedra. Em 1964, após várias dificuldades BURROCRÁTICAS e Politicas, Jorge de Sena consegue defender tese de Doutoramento em Letras e Livre docência em Literatura Portuguesa, e os títulos Académicos foram-lhe atribuídos com distinção e louvor. O Júri era composto por Catedráticos das Universidades do Brasil, (Rio de Janeiro), São Paulo, Minas Gerais, e Bahia. A sua tese são os Sonetos de Camões e o soneto quinhentista peninsular. Nos EE.UU., fixa-se a partir de 1965 na Universidade de Wisconsin (considerada ao tempo umas das top ten dos EE.UU.) para a qual havia sido convidado. Após dois Anos como visiting professor, pede demissão de seu cargo no Brasil e é nomeado Professor Catedrático do departamento de Português e Espanhol daquela Universidade. Fez conferencias em várias Universidades Americanas, Membro da MODERN LANGUAGE ASSOCIATION e da RENNAISSANCE SOCIETY OF AMÉRICA, tendo sido eleito ACADÉMICO DA HISPANIC SOCIETY OF AMÉRICA em 1966. Foi crítico Literário do Mundo Literário, de Teatro na Seara Nova e na Gazeta Musical e de TODAS AS BARTES, conferencista sobre cinema nas secções do Jardim Universitário de Belas Artes, além de Artigos publicados em vários Jornais, como o Primeiro de Janeiro, Noticias, Comércio do Porto, entre outros. Tem livros traduzidos em Espanhol, Francês, Italiano, Inglês, Alemão, Croata, Lituano.

Eis uma breve resenha à guisa de Curriculum daquele que é considerado O MAIOR depois de Pessoa. Para algumas referências biográficas, CLIQUE AQUI.. Outras referências podem também ser encontradasneste outro link.

Jorge de Sena era um HOMEM INTEIRO. Para ele não havia CONDESCENDENCIAS para a MEDIOCRIDADE, LAMBE-BOTAS e quejandos. Era UM MAL-AMADO, pela sua intransigência e verticalidade. De Cultura IMENSA, não esperava que lhe fizessem justiça depois de morto. Vejamos este Poema:

VER

No coração mental das tuas flores perdidas
Há um pequeno núcleo enegrecido,
Que enegreceu à falta de o olhares.
Não julgues, olha-o,
Olha-o por amor da minha vida.
Verás que se desdobra imaculado.
Estarei pensando fugidiamente em como
Será que o olhas. Nada mais farei.

II

No ténue perpassar de nuvens cuidadosas
Como flores que abriam no silêncio de outras,
A mim próprio escuto, e os olhos com que vejo
São minha voz falando o tempo de passarem
Mais outras nuvens, qual a vida ao sopro,
Ao invisível sopro ou chama ou só altura
Interiormente aberta ao espaço que a rodeia.
A mim próprio escuto, eu sei. Mas não de mim,
Que alheio vivo a vida que em mim fala.
Como as nuvens que passam cada vez são outras
A quanto escuto ignoro ou esqueço ou nem contemplo,
Abertos olhos, meu destino além
De mim, de tudo eu próprio sou porque
Já fui e não serei, ou serei sempre mais
De meu destino a essência que lhe dou
Na extrema contingência de tornar a ser.

Jorge de Sena era um Homem paradoxal! Não no sentido de que o paradoxo é o contrário da verdade, mas sim a verdade vista do lado contrário. Talvez por isso os seus volumes de notável recorte, sobre ANDANÇAS E NOVAS ANDAÇAS DO DEMÓNIO, não encontraram junto do Público a receptividade que “ DE DIREITO” lhe caberiam. Mais estranho porém, terá sido o facto de os que neste País condicionavam, ou imaginavam condicionar, a sensibilidade dos leitores anónimos. Diria Eduardo Lourenço; Jorge de Sena não é um autor fácil. É um autor, e um autor nunca é fácil. Ainda subsistiam muitos resquícios dos MODERNOS Savonarolas, nos nossos meios culturais. Mas Jorge de Sena seguiu o seu rumo, indiferente às “coisas pequenas”, ciente de que era GRANDE! Continuando E. Lourenço. O que realmente distingue a sua obra, não só no panorama Nacional, onde o seu caso tem foros de insólito, como no contexto mais geral da cultura contemporânea, é o facto dela constituir uma meditação a que a História da Cultura, mormente a literária e espiritual, serve de mediador privilegiado e, por vezes, único. Decerto, o exemplo de um Jorge Luis Borges poderá ocorrer quando se pensa na obra de Jorge de Sena. As diferenças, porém, são bem mais significativas que uma certa exterior analogia. A Obra de Jorge Luis Borges é uma insólita expressão de cultura-ficção, de literatura da literatura, um labirinto sofisticado construído com materiais culturais ou pseudo-culturais como forma da impensabilidade radical do Tempo. O bibliotecário genial de Buenos Aires mediu como que a vacuidade dos livros e resumiu-a no mito de um Livro eterno e inacessível do qual todos procedem e ao qual todos reenviam. Num sentido preciso, a obra de Borges já não faz parte da literatura, vive dos seus limites, glosa a sua radical ilusão e o seu histórico fim. Não é exactamente deste tipo a relação de Sena com a Cultura. Esta é a vida simbólica, a experiencia ardida mas ardente dos homens, o fogo sob a cinza a que conhecimento, vigília e honesto estudo permitem aceder. Nesta fornalha sempre presente meterá as mãos como erudito para remodelar ou se inventar uma figura ou uma época conforme à sua exigência de homem actual, mas mais profundamente ainda a fantasia e a imaginação para transfigurar miticamente as sua mais fundas experiências e intuições de homem e de poeta. Por mais que na obra de Sena se manifeste a omnipresença de uma consciência superior à matéria que informa, por mais que uma dialéctica irónica, nos mostre um autor hiper-consciente dos seus dons e do domínio que sobre eles exerce, num virtuosismo sem imitadores pátrios, o jogo prodigioso que se desenrola nas suas páginas nada tem de artificioso. Esse jogo conhece-se como jogo histórico, está penetrado de ecos, disputas, e combate, alegoria e extreme realismo. O resultado é uma maquinaria literária de uma extravagancia sabiamente ordenada sob a qual corre sem fadigas uma confissão tumultuosa e límpida por interposta pessoa, confissão num sentido mais fundo que aquela que “diz” o seu óbvio pois nela se engloba a voz que o “não-diz ou o tenta, ou o diz mais alto através dos Marcos Semprónios, dos Camões ou do Físico Prodigioso, presenças perturbadas e perturbantes, do muito admirável livro que se chama NOVAS ANDANÇAS DO DEMÓNIO.

Mestre Emérito de Teoria da Literatura, Poeta, Prosador, Dramaturgo, ensaísta, ficcionista, Critico, Tradutor, que “não conseguiu” ser Profeta em sua terra, porque Jorge de Sena era Grande demais para a pequenez das mentalidades retrógradas que sobreviviam aos Coronéis do lápis azul da Censura prévia. Mas vejamos o que diz o próprio, em entrevista dada em Abril de 1968. Ainda não “havia” Maio de 1968!

Pergunta:

Há quem o acuse de susceptível e agressivo. Concorda que o é?
Resposta:

Realmente? Julgava eu que esse mito já havia passado, por se ter revelado inoperante para neutralizar-me e destruir-me. Mas, se acaso sou susceptível, tenho a susceptibilidade dos exigentes e dos arfáveis, honestamente afáveis. E, se sou agressivo, é só a agressividade do muito amor. Eu não perdoo a ninguém a mediocridade, a estupidez, a vileza, a malignidade, a incultura, a suficiência, a intolerância, o espírito de compromisso, a cobardia moral, etc.
Neste caso, não é “assim falava Zarathrusta”! É, ASSIM FALAVA E PENSAVA JORGE DE SENA, pela pena do próprio.


PERGUNTA:

Não é novidade para ninguém que vc. É um dos seus mais seguros admiradores. Mas a frequência com que proclama o seu talento, ou a “obrigação” e necessidade que parece sentir em proclamá-lo não denunciarão uma certa insegurança, a par, naturalmente, da recusa a falsas modéstias?

RESPOSTA:

É um engano total. Não sou. A Única razão pela qual parece que eu proclamo a cada instante o meu talento é porque, até muito recentemente, se eu o não fizesse, ninguém o faria. E, se eu sou agudamente sensível a todas as formas de injustiça, haveria de deixar que ela se exercesse impunemente comigo? Poucos escritores portugueses de relativo mérito deverão tão pouco à crítica como eu. De todos os sectores, o silencio ou o amesquinhamento foram de regra durante quase trinta anos. Onde está a bibliografia a meu respeito durante trinta anos? Com raras e dignas excepções, eu, durante anos, recebi apenas dedicatórias de livros ou cartas particulares, ou devotadamente admiradoras, mas onde estão os equivalentes públicos de tanta admiração dos meus ilustres camaradas? Uma ou outra dentada em prefácio, quando muito. Elogios “À CONTRE-COEUR” em histórias literárias é o mais que eu recebo, quando notórios medíocres são coroados de flores, por serem suficientemente reaccionários, ou suficientemente “dos nossos”. (dos “nossos”, entenda-se no contexto, os companhons de route do Partido Comunista). Dado que eu não acredito em nenhuma forma de imortalidade, e tenho erudição bastante para saber que cemitérios são as bibliotecas e as histórias literárias; e dado ainda que não me dou a participar de partidarismos que me ofereçam, por substituição, a ilusão da imortalidade, será bem clara a razão de exigir o re3conhecimento que me cabe pelo muito e bom que tenho feito. Tenho horror de falsas modéstias, de facto. Mas tenho ainda mais horror da mediocridade que se compraz em recusar-se a reconhecer o que a excede. Não, não sou um dos meus mais seguros admiradores. Se o fosse, seria como a maioria dos membros da vida literária portuguesa, tão satisfeitos de si mesmos que escrevem sempre um livro pior do que o anterior. O Problema não está em eu me considerar muito grande--- mas sim em os outros serem, na maioria, tão pequenos. De resto, devo acrescentar uma palavra de justiça e de grato reconhecimento: foram muitos dos pequenos que não se julgam grandes, e aos quais durante anos não dei uma palavra de correspondente louvaminha, quem honestamente, e com isenção, se ocupou mais de mim do que a critica oficial das várias chafaricas individuais ou colectivas. A eles devi, por muito tempo, um comovente incentivo que muitas vezes não recebi de amigos. E, ainda quero fazer uma pergunta: quantos escritores de categoria se têm ocupado tão largamente e tão numerosamente dos outros seus contemporâneos, como eu fiz durante trinta anos? Quantos? O mais que fazem é louvar às vezes um medíocre ou desenterrar um morto, com medo da sombra que lhes seja feita. A diferença entre mim e eles é que não temo o juízo do futuro, e não procuro tapar o sol com uma peneira. Não: a minha segurança é total e absoluta: ninguém pode destruir-me senão eu mesmo.

SETE SONETOS DA VISÃO PERPÉTUA

I
Anos sem fim, à luz do mar aceso,
Te vi nudez quase total, tão grácil
Figura juvenil, ambígua e fácil,
E ao longe às vezes totalmente nua

Em só relance de malícia crua.
Tudo isso me atraia e me afastava,
Embora a vista, retornando escrava,
A teus lugares me tivesse preso.

E quase sempre então tua figura,
Sentada estátua, ou falsa sesta impura,
Lá era, ao sol, o tempo congelado.

Hoje, subitamente, tu não viste
Ninguém senão o meu olhar quebrado,
E com lenta inocência te despiste.

Mas quantas rugas no sorriso ansiado!

II

Como velhice esta agonia desce
Ao fundo em que me encontro só comigo.
E quanto amor trocara então contigo
Enfim te dando o que sonhara em anos

Se torna apenas máscara de enganos
Com que te aceito, como amor antigo,
Esse momento de ansiedade e perigo
Que no teu rosto as rugas te recresce.

Tu sabes que de perto a juventude
Se te queimou no acaso das entregas;
E quanto risco a tua imagem corre

Quando não está tão longe que me ilude,
Nem já tão perto que de ciência chegas
A presumir a graça que não morre.

Mas, porque sabes, tua graça negas.

III

Não mais! Não mais! Que eu esqueça que te tive,
E tu me esqueças debruçado em ti!
Que tudo seja como outrora eu vi:
Uma figura ao longe recortada,

E fina e esbelta, ou suave e alongada,
não tão distante que me não entendas,
nem tão perto de mim que tu me vendas,
no mesmo corpo belo, o que não vive

nesse teu rosto, ou sob a tua pele:
uma malícia esplêndida, capaz
de se entregar violenta quando a impele,

sem mais que orgulho, a força juvenil.
Assim será que, em mim, teu corpo jaz.
E sem nos lábios o sorriso vil.

Mas como há-de teu corpo em mim ter paz?

IV

O que o teu corpo foi, não imaginas:
A juventude, a força, a agilidade,
A fantasia obscena, a intensidade
Com que dos gestos se constrói prazer.

Mas isso ele foi em sonhos. Hei-de ver
Teu corpo assim, ou como o possuí?
Ou hei-de vê-lo como ao longe o vi?
Ou como estatua, em lixo de ruínas?

Jacente dormirá, estendida e pura?
Mas como dormirás, se em mim não dorme
O tempo que a teu rosto ainda tritura?

Como nos mata esta velhice enorme!
Que vinha vindo entre nós dois, tão dura,
Que melhor fora te tornar informe…

Ou sombra dúbia pela noite escura.

V

No claro dia passas lentamente,
Fingindo não me ver. Será que tu
Sentiste quanto no teu corpo nu
Não encontrei, menos que a tua, a minha

Memória de ser jovem? Adivinha
A tua carne mais que o meu olhar-te?
A quem tanto viveu de contemplar-te
Te dói de te haveres dado ansiosamente?

E, á luz do mar, ao longe te recortas.
Vejo que fluem para ti, já mortas,
Quantas imagens te criei, tão vivas.

Já não desejo mais do que sorrir-te.

VI

E, todavia, eu não quisera amar-te.
Mas ter-te, sim, de todas as maneiras.
Quem és e como és, de quem te abeiras,
Que dizes ou não dizes, pouco importa.

E muito menos hoje me conforta.
Neste sorriso que dou tranquilo,
Eu ponho num remorso tudo aquilo
Que em fundo amor eu te pudera dar-te,

Se alguma vez te amasse de amor fundo.
Senta-te à luz da do mar, à luz do mundo,
Como na vez primeira em que te vi,

Tão jovem, que era crime o contemplar-te.
E despe-te outra vez, pois vêm olhar-te
Quantos te buscam de saber-te aqui.

Sendo um de tantos, nunca te perdi.

VII

E olhei-te por mais tempo. Ainda hei-de olhar-te,
Quando, acabados teus lugares, partires,
Deixando no ar o espaço de fingires
A graça juvenil que eu devorei,

Ano após ano, e em meu olhar tomei
De todos que te tinham sem te ver.
Ainda hei-de olhar-te, se, quando morrer,
Puder voltar aqui a procurar-te

No espaço que deixaste. Mas não te amo,
Não te amei nunca, e nunca te amarei.
Não se ama nunca a quem olhamos tanto.

Nem se deseja. Quando por ti clamo,
Neste silencio em que de ti fiquei,
Não é senão o libertar do encanto

Que foste ao longe, a luz do mar aceso.
E à luz que te recorta é que estou preso.

Jorge de Sena, 25-02-1965